sábado, 27 de junho de 2009

Poesia sábado: Antonio Cicero


O PAÍS DAS MARAVILHAS

Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixe, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

*

De A cidade e os livros.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Pernambucanas (com João Cabral)


Olinda Revisited

Poucas cidades ainda
(sem falar nas igrejas
e úteros matriarcais
e bacias maternas)
podem dar a quem passa
a intimidade aquela
de quem vive uma casa
como outra matriz terna,
habitando paredes,
chãos de tijolo, telhas,
rebocos que respiram
anchuras, estreitezas,
mais a porosidade
das quartinhas de terra
que à água dão o gosto
do barro que nos era.
De fora de uma casa
de uma cidade dessas,
o estranho-de-mais-longe
sente a morna franqueza
que expressa sua fachada
(mesmo quando se fecha).
Hoje-em-dia em Olinda,
e não só nas igrejas,
viver-se de alma e corpo,
se pode quem se veja:
se pode em qualquer casa
e contemplando-a apenas;
quem visita tal casa
não só passeia nela:
geralmente se casa
com ela, ou se amanceba.

*

João Cabral de Melo Neto, de A escola das facas.

A foto de Olinda, modesta (a foto, não Olinda), é minha. De quando estive em Pernambuco, na semana passada.

Guardo, e escrevo aqui, para que ela leia de lá, a gratidão imensa à minha amiga pernambucana Cristina Brayner, que fez a ponte Denver-Rio-Recife. E a seus irmãos Zé Nivaldo e Angela, ambos daquela generosidade que deixa a gente meio sem fala. E que se paga assim: com João Cabral.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Perdidos e achados. Avó Dezanove. Granta.

Saltaram para fora de um armário com a porta quebrada os livros de poesia brasileira que eu considerava perdidos fazia mais de dois anos. Reencontrei com alegria Carlito Azevedo, Eucanaã Ferraz, Antonio Cicero, Claudia Roquette-Pinto, Henrique Rodrigues. Que eu considerava emprestados e sumidos no empréstimo.

Também saltou dali Avó Dezanove e o segredo do soviético, em sua edição portuguesa. Aqui no Rio, Ondjaki autografa o livro na Travessa do Leblon, em sua edição brasileira, na noite desta quinta-feira (dia 25).

*

Na segunda, dia 29, a Objetiva/Alfaguara faz o coquetel de lançamento da nova edição da revista Granta. Às 19:30, participo de um papo com Luis Fernando Verissimo e Sérgio Sant'Anna, mediado pelo Francisco Bosco. Na Casa do Saber da Lagoa, Rio (Av. Epitácio Pessoa, 1164).

domingo, 14 de junho de 2009

No próximo domingo, na Travessa de Ipanema


"No meio do oceano navegava um barco imenso. As velas estavam todas içadas. Aquele navio tinha saído deum porto ao norte de Portugal trezentos anos antes, ao raiar do dia. Tratava-se, na verdade, do último dia de uma época em que coisas dessa natureza ainda aconteciam: coisas como barcos levantarem âncora e saírem numa viagem sem volta."


Clique no convite para ver melhor.
Eu e Rui de Oliveira convidamos para o lançamento no dia 21, a partir das 4 da tarde.


A bofetada metafísica

José Castello

Publicado originalmente na coluna do José Castello,
no suplemento Prosa & Verso do jornal O Globo, em 13 de junho de 2009

Tenho um vizinho que se diz filósofo. Semana passada, em uma reunião de condomínio, como discordássemos em torno de uma questão hidráulica e sabendo de minha paixão pela literatura, ele me desafiou: “Kant dizia que a leitura de romances corrói o pensamento e aniquila a memória”. E, fechando a cara, prosseguiu: “Tome cuidado, porque a literatura pode provocar um grande mal”.

Mal sabe meu vizinho que naquela tarde eu lia com grande interesse Monte Verità, o mais recente livro de Gustavo Bernardo (Rocco, Coleção Jovens Leitores). Um romance filosófico que – mesmo retido na etiqueta comercial de “literatura para jovens” – trabalha justamente com algumas das ideias de Emmanuel Kant. Em particular, aquelas que compõem a sua ética.

Antes de modificar o mundo, devemos modificar a nós mesmos, Kant sugeria. E nos dava outra sugestão ainda mais decepcionante: o importante não é procurar a felicidade, mas merecê-la. Não é agradável o conselho de que desistamos de consertar o mundo; mais dolorosa ainda é a proposta de que abdiquemos da felicidade. Contudo, só depois de abandonar a ilusão, podemos, enfim, viver. E até melhorar um pouco o mundo e diminuir a infelicidade.

É o que faz o moçambicano Manuel, protagonista de Monte Verità. Depois de ter a mulher assassinada pela repressão política, só lhe resta fugir de Maputo. Não tem tempo, sequer, de apanhar a filha pequena que o espera na escola. Pouco antes, quando se deparou com a mãe morta, a menina lhe ofereceu um insight metafísico. Olhou o corpo vazio e disse: “Papai, Deus chegou atrasado”. Aceitando as brutais limitações impostas pela ausência divina, Manuel se refugia na Suíça italiana, onde se emprega como garçom no hotel Monte Verità. Nos intervalos do trabalho, escreve o livro que estamos a ler.

O livro de Manuel conta a história de misteriosas “intervenções” impostas ao planeta Terra, atos pragmáticos e “sem autor” que, no entanto, modificam nossa existência. Quem as propaga? Algum poder secreto? Seres de outro planeta? O próprio Deus? A primeira delas bane todas as armas. Nas intervenções seguintes, combate-se a explosão demográfica, a poluição, a violência contra os animais e os crimes hediondos. Atos que, no entanto, não pretendem dar lições de vida, ou “educar”. O objetivo não é salvar, ou amadurecer, mas, sim, levar o homem a abandonar a onipotência, para que suporte se ver como o ser vulnerável que é. O homem deve desistir da felicidade e da perfeição para, contando apenas consigo mesmo, merecer enfim esse nome.

Olhei para meu vizinho e pensei no modo altivo com que ele manipula as ideias, como se elas existissem apenas para lhe servir. Ocorreu-me então que a filosofia é, muitas vezes, uma forma mais obsessiva de literatura. Acontece que, enquanto os filósofos se agarram precariamente a seus sistemas e conceitos, os escritores – que não têm onde se amparar – agarram-se ao que lhes falta. Todo escritor parte, sempre, de uma ausência. Um grande vazio brilha na primeira página em branco.

Pensava nisso quando o porteiro me entregou um postal expedido por uma amiga que vive em Paris. Uma bela fotografia do escritor francês Louis-Ferdinand Céline, tomada seis anos antes de sua morte. Sexagenário, Céline – um escritor fabuloso sempre odiado por culpa de suas ideias fascistas, que são de fato hediondas – aparece em um jardim vestindo roupas amarfanhadas, desolado e cabisbaixo, a observar seu gato. Ereto e solene, ao contrário, o animal ostenta o olhar altivo dos “homens que sabem pensar”, enquanto Céline, àquela altura entregue ao ostracismo e à derrota, é só um homem que luta para suportar a dor.

Duro e intransigente na vida, Céline fez da literatura, ao contrário, um lugar de liberdade. Não conseguiu livrar-se, porém, da leitura dogmática a que seus grandes romances até hoje estão condenados. A que torrente de olhares os escritores estão expostos! Há poucos dias, uma vaga absurda de incompreensão levou Aventuras provisórias, o romance de Cristovão Tezza, a ser recolhido, depois de adotado pelas escolas de Santa Catarina. Aos olhos obtusos das autoridades locais, duas ou três cenas amorosas tornariam o livro ofensivo aos adolescentes.

É desse mesmo mundo duro e cego, em que romances são vistos como venenos, que trata Monte Verità. Ele é também o objeto deAventuras provisórias, a história de uma traição que termina em um crime. A ética, para o escritor, porém, não está na submissão a princípios ou a dogmas. O escritor só tem uma ética: não pode trair a si mesmo, sob pena de se tornar apenas um escrivão. E é nessa condição inegociável que a potência da literatura se garante.

Em nosso tolo mundo do Eu, os escritores se transformaram em celebridades. Escritores deveriam repetir, hoje, a frase de Manuel, o protagonista de Gustavo Bernardo: “Eu não sou nenhum tipo de deus. Eu não sou sequer nenhum tipo de eu”. Universo vazio, no qual as coisas só existem em potência, a literatura produz narrativas tão distintas quanto Aventuras provisórias e Monte Verità; agrega – sem que isso signifique conflito mas, ao contrário, riqueza – autores tão distantes quanto Cristovão Tezza e Gustavo Bernardo. É por isso que a literatura se torna ameaçadora: porque não exclui nada, nem ninguém. Porque encara, sem medo, a precariedade do homem.

Julio Cortázar dizia, por isso mesmo, que só a literatura é capaz de desferir no mundo uma verdadeira “bofetada metafísica”. Não para fazer proselitismo ou pregação, tampouco para buscar seguidores ou produzir crentes. Ao contrário, a literatura só produz descrentes; sujeitos que, cientes da fragilidade do mundo, fazem da fraqueza a sua grandeza. Tal disponibilidade para o quase-nada rege, também, os verdadeiros filósofos. É dela, ainda, que o moçambicano Manuel se vale para continuar a viver. Conhecido por seu ceticismo, o filósofo escocês David Hume, um antecessor de Kant, afirmava que a filosofia é um saber vacilante, no qual “praticamente nada se pode dizer”. É também com esse “praticamente nada” que os escritores escrevem.

sábado, 13 de junho de 2009

Para ver Susana


Susana Fuentes, escritora (autora dos belos contos de Escola de gigantes, pela 7Letras), tradutora de inglês, alemão e russo, atriz, mímica, acrobata, musicista, dublê da palhaça Filomena... one woman show... convida a gente para ver Prelúdios, o espetáculo que ela assina e interpreta solo.

No Rio: Casa de Cultura Laura Alvim, terças e quartas às 21h. Estréia esta semana. Vai até dia 29 de julho.

Poesia sábado: Jorge Sousa Braga

OS CINCO DIOSPIROS

São cinco diospiros, cinco manchas de tinta-da-china Estão ali o amarelo-laranja, a consistência dura, a doçura da polpa, as tardes de sol, as espessas folhas de um verde escuro...Nessas cinco manchas de tinta que caíram sobre o nada.


*


Diospiros é o nome dos nossos caquis em Portugal.

Jorge Souza Braga, tradutor de Bashô (entre outros), escreveu este poema em prosa inspirado na mesma imagem dos caquis que ilustra este blog, no alto, à esquerda.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O clip do livro

Em breve vai estar pronto o clip que estamos realizando, com direção da Maria Camargo, para A sereia e o caçador de borboletas.

Abaixo, cenas da filmagem com Rui de Oliveira, João e Nina (os filhos da Maria e leitores oficiais), Maria e a equipe.




terça-feira, 9 de junho de 2009

Um café com John Fante

Minha mais recente coluna no Rascunho aqui.

domingo, 7 de junho de 2009

RoMordzinski

Daniel enviou hoje.
Da Piazza Navona.
Sua expo romana (Borges no cartaz).
Continuo perguntando: quando vamos ver Mordzinski editado no Brasil?

sábado, 6 de junho de 2009

Dá no coro






Poesia sábado: Felipe Fortuna

ANATOMIA

Um poema é uma guerra: nele e nela
se desintegram a palavra e a vida
e o que resta é perda que ressuscita:

ler um poema de certo modo o mata,
pois morre o que não se pensou ao ler,
embora a leitura aos poucos esclareça

o que se pensou jamais fosse ler.
Poema é duelo plural e infinitivo:
é, acrobática, sobre o papel a escrita

ao mesmo tempo enigma, estigma, ígnea.
Ler o poema, mas não resolvê-lo:
isso acontece há muito tempo,

e somos nós que estamos lá dentro.
O poema nos faz e desfaz, a guerra também,
e é com palavra e arma que sabemos

o quanto nos resta de sonho e de renascimento.


*

De Atrito (Alarme Ed., 1991)

Felipe Fortuna (Rio, 1963) é poeta, ensaísta e diplomata. Vive em Londres.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O Rio de Janeiro continua sendo

E me sinto sendo no meu Rio quando escuto o carro do comprador de ferro-velho subindo a ladeira.

*

Divertido o lançamento do Dicionário amoroso da língua portuguesa na terça. Muito bonito o show do Dá no coro que estreou ontem no Gláucio Gil, em Copacabana, e rola toda quarta durante este mês, sempre às sete.

*



A foto é para registrar a última noite de filmagem, na Lagoa, do curta de Maria Camargo sobre o qual andei falando aqui (O coração às vezes para de bater). 

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