I - O mar e o céu
Enquanto afundo, tudo é leve e denso.
Na superfície jaz cada lembrança,
E surge uma memória nova: dança
Em tom suave a cada vez que penso.
Enquanto afundo, sinto-me suspenso
Nos braços d'água, feito uma criança
Que aceita a novidade e não se cansa,
Vulcão que queima sob o mar imenso.
Enquanto afundo, o barco é já distante
Escombro. Sobrevôo nos ilhéus,
Nas ondas da maré de lua minguante.
Pareço ser um deus vindo dos céus
A todos os seres deste estranho mundo.
Tal anjo, desço à terra enquanto afundo.
*
De A musa diluída (Ed. Record), o belo livro líquido do Henrique.
0 comentários:
Postar um comentário