Olinda Revisited
Poucas cidades ainda
(sem falar nas igrejas
e úteros matriarcais
e bacias maternas)
podem dar a quem passa
a intimidade aquela
de quem vive uma casa
como outra matriz terna,
habitando paredes,
chãos de tijolo, telhas,
rebocos que respiram
anchuras, estreitezas,
mais a porosidade
das quartinhas de terra
que à água dão o gosto
do barro que nos era.
De fora de uma casa
de uma cidade dessas,
o estranho-de-mais-longe
sente a morna franqueza
que expressa sua fachada
(mesmo quando se fecha).
Hoje-em-dia em Olinda,
e não só nas igrejas,
viver-se de alma e corpo,
se pode quem se veja:
se pode em qualquer casa
e contemplando-a apenas;
quem visita tal casa
não só passeia nela:
geralmente se casa
com ela, ou se amanceba.
*
João Cabral de Melo Neto, de A escola das facas.
A foto de Olinda, modesta (a foto, não Olinda), é minha. De quando estive em Pernambuco, na semana passada.
Guardo, e escrevo aqui, para que ela leia de lá, a gratidão imensa à minha amiga pernambucana Cristina Brayner, que fez a ponte Denver-Rio-Recife. E a seus irmãos Zé Nivaldo e Angela, ambos daquela generosidade que deixa a gente meio sem fala. E que se paga assim: com João Cabral.
2 comentários:
Disseram que a felicidade barata é descalçar de noite uma bota apertada calçada de manhã. Eu digo que é tomar uma cerveja gelada no Alto da Sé depois de subir a ladeira da Misericórdia no sol.
Conhecer Olinda, no início da minha juventude foi uma grande emoção, não só por causa de João Cabral, mas igualmente porque a historia de Pernambuco, de Joaquim Nabuco vai muito antes a Mauricio de Nassau e hoje com um sabor diferente após o livro de Evaldo Cabral de Melo , contando nos que lá funcionou a primeira Sinagoga da América
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