Há vinte anos eu cantava. O lugar se chamava "Tudo bem" e era um restaurante brasileiro, de donos franceses, em Avignon. Eles me pediram pra inlcuir "Papel machê" no repertório e eu incluí, mesmo não gostando da música. Mas gostava de cantar "Essa moça tá diferente", do Chico. Uma vez, num festival ao ar livre em Le Havre, cantei "O bêbado e a equilibrista" para mais de quintentas pessoas. Eu nem sabia que podia. Tinha dezoito anos. E talvez aos dezoito anos a gente possa quase tudo. Até mesmo fazer as coisas que acha que não pode.
Depois isso passou, a voz se gardou na garganta. Veio a época da flauta, mais séria, pós-dezoito anos, e era preciso dar aulas, e tocar em casamentos, e tocar no chá da tarde do finado hotel Rio Palace (esqueci como se chama agora) - onde às vezes eu e o Alberto Mejía ficávamos tão de saco cheio que líamos de trás pra frente as partituras do Real Book, só pra variar um pouquinho, compondo peças de jazz muito, muito estranhas.
Eu me dividia entre ensaios de um trio de MPB e um trio de música contemporânea, mas bom mesmo foi quando toquei minhas primeiras sonatas de Bach com o hoje-em-Florianópolis (acho) Guilherme Sauerbronn, e o Assobio a jato do Villa-Lobos, com a hoje-na-Alemanha Monica von Bülow. Puro rock'n'roll.
Na maioria das vezes, porém, quando eu me fechava para estudar numa daquelas salinhas da Unirio, acabava deitada no chão de carpete áspero escrevendo um um-dia-romance. Lendo todos os Saramagos que saíam. Devorando Mários de Andrade. Eu era mais apegada aos livros do que às partituras (acabei efetivamente escrevendo um livro, que se chamava In Memoriam, mas era um título muito ruim, e a Vivian Wyler, da Rocco, que topou publicá-lo e ver que bicho dava, sugeriu Os fios da memória).
Nas horas vagas ia conversar com o Jorge, o livreiro da Unirio, que sempre tinha alguma coisa para tentar o dinheiro pouquinho que eu ganhava dando aulas e tocando subalternamente.
E assim foi.
E ontem, pós-pós-dezoito, dez anos após vender minha flauta para uma aluna e despachar a música oficialmente da minha vida, passei a noite tocando e cantando, nessa festa, e me lembrei - então é por isso que eu gostava.
Um violão e um sax ao meu lado. São Jorge, obrigada pelo convite. Talvez aos trinta e oito anos a gente possa quase tudo, por não se levar mais tão a sério. Até mesmo fazer as coisas que acha que não pode (mais). No fundo, no fundo, desaprender faz bem.
1 comentários:
Adriana, você tem mesmo razão e tocou num ponto fundamental - acho que muito da sedução da vida pode estar mesmo nesta arte de desaprender cotidianamente. Abraço. Nilo
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