Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Literatura: duas ou três coisas que (penso que) sei dela


Existe um consenso diante da questão de que ser um bom escritor e escrever bonito são duas coisas completamente diferentes. Venho a esse assunto porque recentemente li em mais de um lugar novas considerações sobre o tema, refoçando essa opinião. Que também é a minha. Mas, dando mais tratos à bola, notei que quase ninguém fala sobre o outro lado da mesma moeda: ser bom escritor e escrever “feio” guardam a mesma distância semântica, os mesmos anos-luz existentes entre o par lá do início do texto.

Pode ser que num momento de intensa decepção com a humanidade e com o curso das coisas, em que é quase inevitável essa ridícula sensação de impotência, só sobrem palavras de guerra. Porém, é preciso lembrar que isso não equivale, necessariamente, a qualidade, num texto literário.

Desde Longino, lá atrás, no século I da era cristã, os filósofos vêm teorizando sobre o conceito de sublime. Edmund Burke, no século XVIII, foi o primeiro a perceber que esse conceito não se confunde ao da beleza. Kant falou daquilo que é “absolutamente grande”, encontrando o sublime em eventos como terremotos. Não à toa, para Schopenhauer a experiência do sublime poderia ser destruidora. No fim do século XX, Lyotard trouxe de volta a aporia dos gregos, casando-a à experiência do sublime – essa sensação de desconcerto, de perplexidade, que nos faz recuperar uma posição instável no mundo (pode parecer um paradoxo, mas para qualquer cético a instabilidade, como situação fecunda e criativa, é bem vinda).


No entanto, o perigo é o de nos assemelharmos ao espectador do quadro acima, de Caspar David Friedrich (Wanderer über dem Nebelmeer, ou Caminhante sobre o mar de névoa): a observação da sublime tormenta a uma distância segura. O excesso, o inapreensível que redunda no sublime pode ser uma experiência transformadora tanto quanto uma enorme mentira, em que o espectador não se compromete e não dá a própria cara a tapa.


Um grau abaixo, muitas vezes o texto literário propositalmente “feio” (irmão gêmeo do intencionalmente “bonito”), tomando esse valor à moda parnasiana da deusa serena, serena forma, me parece igualmente inócuo e vazio. Ainda se revela preso à ultrapassada estratégia de épater le bourgeois (“escandalizar o burguês”) – e, portanto, confessa que parou no tempo.


O bom texto literário, em minha opinião, não é o necessariamente bem cuidado ou necessariamente mal cuidado, o alta-costura ou o punk de butique. O bom texto literário é aquele que revela, em si, as limitações da nossa existência mais do que frágil sobre este planeta surrado, do qual, paradoxalmente, somos os maiores torturadores. Como escreveu Fernando Pessoa, no trecho que não me canso de repetir: “a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”.


Para isso, a literatura não pode oferecer respostas nem se pautar por ideologias. A literatura, para mim, é aquele mergulho no mais íntimo e no mais estranho de nós mesmos, para que talvez, ao vir à tona, tenhamos condições de ocupar com mais consciência nosso espaço no mundo. Esse “mais íntimo” e “mais estranho” é o epicentro da nossa humanidade (não encho a boca para dizer isso: como denunciou Isaac Bashevis Singer, o homem é “o pior transgressor de todas as espécies”). É uma tentativa de olhar para o outro, para o diverso, de ser “o grão de sal e mostarda” de que falou Primo Levi.


E é, sempre, uma busca. De nós mesmos nesse outro. Desse outro em nós mesmos. Uma reiteração do espanto, no suporte das palavras de um romance, de um conto ou de um poema. Portanto, essa busca nunca pode se pautar pelas categorias do “bonito” ou do “feio”, tampouco pode recorrer ao sublime através do abjeto ou do grandioso como faria um mero observador da tormenta, como quem lê sobre a chacina na favela no conforto de sua sala de estar.
Não é para isso que se faz literatura, e ela com certeza está muito além dessas categorias. Faz-se literatura, talvez, para recuperar a curiosidade e a capacidade de respeitar a diferença - como único modo de existir de forma positiva e criativa.

6 comentários:

Djabal disse...

Creio que o comentário é quase desnecessário, gosto de pensar que a literatura é também uma maneira de iluminar pontos cegos e cantos obscuros. Mas um pensamento do Bernardo Soares, vale a pena ser transcrito:
"O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa."
Portanto, creio que a elegância e toda a sua subjetividade, deve entrar na receita também. Não ?

Nilo disse...

Adriana,estávamos ontem num papo sobre a arte de escrever e eu me valia de alguns ponto da Carta a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke e agora cehgo em casa e acho sua página. Que bom. O seu texto tem uma leveza tão precisa e uma doçura tão exata que é isso aí:é preciso escrever, escrever, escrever.Escrver se aprende escrevendo. Aliás cite esta mesma frase do Pessoa "a literatura como toda arte é um confissão de que a vida só não basta". Valeu mesmo Adriana.

Rodrigo Santiago disse...

Eu escrevo feio.

Remo Saraiva disse...

Eu escrevo - e isso basta. É importante que se tenha mais gente no bunker.

Bjs,
REMO.

denny yang disse...

Adriana,

Encontro seu blog hoje, aqui de Taipei, e linko ao meu, que tento atualizar sempre; visitarei assiduamente,

abs
Denny

Flávio Carneiro disse...

Dica,
concordo plenamente com tudo o que você disse. Seu comentário, na verdade, é já o esboço de um ensaio. Espero que você o escreva um dia.
E queria só acrescentar uma coisa. Lá em Passo Fundo, ano passado, sustentei uma tese de que a Marina (Colassanti) discordou um pouco. Ela estava certa e acho que eu também. Mas a questão é a seguinte: acredito que a geração modernista, a primeira (de 1922)foi fundamental para o estabelecimento da escrita do feio como padrão de beleza. É um contrasenso, claro, porque eles queriam quebrar padrões, embora estivessem reforçando o que o Octavio Paz chama de tradição da ruptura.
O que acho ruim - e é óbvio que aqui não teremos espaço adequado para discussão tão ampla - é que novos ou mais ou menos novos escritores ignorem certos conceitos, ou certas informações sobre história da literatura.
Tudo bem, você não precisa conhecer teoria ou história da literatura para ser escritor. Mas para falar sobre literatura, acho que precisa sim.
E nesse campo tem muita gente dizendo bobagem.
Voltando aos modernistas, acredito que eles tenham criado de certa forma um belo monstro, o monstro que atende pelo nome de novidade.
Machado, bruxo de verdade, sabia que não existe novidade. Existem, no máximo, vislumbres. E é atrás deles que corremos.
O que me incomoda na estética do feio (vamos chamá-la assim) é certa petulância, tão chata quanto à do belo.
Você sabia (vide Rádio Relógio) que um dos poetas mais populares do Brasil foi Augusto dos Anjos? Ele mesmo, do escarra nessa boca que te beija. Era uma poesia da agressão, e o povo adorava (não na época dele, infelizmente para o poeta), mas algumas décadas depois. O cortiço, de Aluísio Azevedo, era isso também, uma agressão ao bom letrismo (embora não tão radical como Augusto dos Anjos). E foi sucesso.
Esses caras sabiam fazer do feio uma linguagem interessante. E eles escreveram quando? Naquela época do eu não era nem nascido, vou ler isso pra quê?
Falando o óbvio, falta leitura. E aproveita que estou calmo.